Publicado em 02/09/2026 por Dr. Harisson Ribeiro Bastos

Se você mora em Goiânia ou na região metropolitana, já percebeu: o nariz do seu filho sangra do nada, a pele fica áspera, a tosse seca aparece de madrugada e ele acorda com a boca ressecada. Não é coincidência e não é frescura. É o ar.
Nesta época do ano a umidade relativa em Goiás cai para valores que a Defesa Civil classifica como estado de atenção, e em vários dias ela chega perto ou abaixo de 20%. Para efeito de comparação, o conforto respiratório fica em torno de 60%. O corpo de um adulto sente. O de uma criança sente mais, porque as vias aéreas são menores e a superfície corporal em relação ao peso é maior.
Primeiro o nariz. A mucosa nasal precisa de umidade para funcionar. Ela é a primeira barreira contra vírus e bactérias, e trabalha empurrando muco e partículas para fora. Quando resseca, esse muco fica espesso, a barreira falha e pequenos vasos superficiais se rompem. Daí o sangramento que assusta e quase sempre é banal.
Depois a garganta e o peito. A criança acorda com tosse seca, pigarro, voz rouca. Quem tem rinite ou asma piora, e piora antes de qualquer resfriado aparecer, porque não é infecção, é irritação.
Por último a pele e a hidratação. Lábios rachados, pele áspera, coceira, e uma perda de água pela respiração e pela pele que o corpo não avisa em forma de sede. Criança pequena não pede água com a frequência que precisa.
Lavagem nasal com soro fisiológico a 0,9%. É a medida mais eficaz e a mais subestimada. Não é só para quando a criança está resfriada. Em período seco, ela mantém a mucosa funcionando. Pode ser feita várias vezes ao dia, inclusive antes de dormir.
Água com mais frequência, mas com uma ressalva importante. Acima dos 6 meses, ofereça água ao longo do dia sem esperar a criança pedir. Abaixo dos 6 meses, bebê em aleitamento materno exclusivo não precisa de água: o que ele precisa é mamar mais vezes. Oferecer água nessa idade ocupa espaço no estômago e reduz a mamada, e é um dos erros mais repetidos nesta época do ano.
Umidificar o ambiente, com critério. Uma bacia com água ou uma toalha molhada no quarto resolve boa parte. Se usar umidificador, a limpeza precisa ser diária, porque aparelho sujo vira fonte de fungo e piora exatamente quem você quer proteger. E não exagere: ambiente úmido demais favorece mofo e ácaro.
Horário de rua. Entre 10h e 16h o ar está mais seco e mais quente. Brincadeira ao ar livre e atividade física rendem mais no início da manhã e no fim da tarde.
Pele. Hidratante depois do banho, com a pele ainda úmida. Banho morno e curto, porque água quente e demorada retira mais gordura da pele.
A maioria dos sangramentos nasais da infância vem da parte da frente do septo e para com uma medida simples. Comprima a parte mole do nariz, logo abaixo do osso, por 10 minutos seguidos, sem soltar para conferir. Mantenha a criança sentada, com a cabeça levemente inclinada para frente.
Duas coisas que se fazem por hábito e atrapalham: jogar a cabeça para trás, o que faz o sangue descer pela garganta e provocar vômito, e tampar o nariz com algodão ou papel, que gruda e volta a sangrar quando é retirado.
Nesta época aparecem muitas recomendações de xarope caseiro, mel para bebê, nebulização com substâncias variadas e antialérgico de rotina para prevenir. Vale lembrar de duas: mel é proibido antes de 1 ano pelo risco de botulismo, e nebulização com soro fisiológico não trata tosse seca de ar seco. O que resolve é umidade, hidratação e higiene nasal. O resto é medicar sintoma sem tratar a causa.
O ar seco de Goiás dura algumas semanas por ano. Com essas medidas, a maioria das famílias atravessa esse período sem precisar de nada além de soro, água e paciência. O papel do pediatra é justamente separar o que é o ar do que é doença.
Dr. Harisson Ribeiro Bastos, pediatra, CRM-GO 17150, RQE 13428. Conteudo educativo alinhado as diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria. Nao substitui consulta medica.
O Dr. Harisson não atende planos de saúde. A consulta é particular, dentro do Plano de Precisão, um acompanhamento personalizado com valor a partir de R$ 350.
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